sábado, 20 de outubro de 2007

Do Tempo de Quando

A RASGADA NUDEZ QUE NOS VESTE

São tantas as coisas a ditarem-me palavras. Só eu as escuto. Coisas prenhes de acção. Também há as prenhes de nada; são as que não guardam mistério.
É irresistível rasgar a cortina das coisas, deixá-las entrar, naturalmente, para se transformarem na maga sinfonia das palavras.
Preciso escrever.
Há um outro mundo onde as palavras moram, se acasalam e reproduzem. Há um outro mundo sem a roupagem das horas, do labor, de todos os deveres e de todas as obrigações, de todas as normas, de todos os comportamentos, de todos os parece mal e de todos os parece bem, de todos os almoços e jantares, de todos os conflitos, de todos os aniversários, de todas as mágoas…
Há um outro mundo que as palavras escritas transportam, porque carregadas de ti, de mim, de nós. É atingível esse mundo onde harpas e violinos trinam sempre que fazemos amor.
Preciso escrever para me esvaziar e voltar a encher-me. Quase sufoco de tanto que vou guardando no percorrer dum tempo dentro do próprio tempo.
Escrever permite-me atingir um estado de alma tocante na insatisfação da procura: a procura da palavra que alberga o tamanho do incomensurável mundo.
O outro mundo.
O mundo que, sendo temporal no existir, suporta a intemporalidade da memória ungindo-nos, a mim e a ti, com credos de vida, com aventurados trilhos, a rasgada nudez que nos veste.

Adelaide Graça

CONVITE
Dia 10 de Novembro, Livraria Bertrand C.C. Vasco da Gama, Lisboa, 17 horas, naquele Sábado, vai acontecer o lançamento, mais um, do mais novo livro de Adelaide Graça, "O Tempo de Quando".

PORQUE É ESTE O MEU CAMINHO

Mulher, com asas se gaivota ou de garça, tanto faz!
Não me imagino prisioneira em espaços abertos
a desperdiçar luz e vida que vêm dos filhos
que um dia pari.
Não me imagino prisioneira e sou prisioneira de tantas vezes.
Espontaneamente prisioneira!
Dum amor imensurável do qual não me imagina
a deixar de amar.

Porque é este o meu caminho.

Adelaide Graça


Penso que para dizer alguma coisa sobre Adelaide Graça, mulher, poeta, se pode partir deste seu poema; a recusa à prisão, de livre vontade presa, ao amor sem medida. Escrevendo. Preciso de escrever, são palavras da autora. A determinação pelo sonho da escrita, faz dela uma poeta de corpo e alma. A sua obra é prova do eco espelhado de quem lê as suas letras, suas sílabas, palavras, poemas.
Acabado de conhecer a sua escrita, aproveito o tempo de almoço em trabalho, para tomar contacto com os seus versos. Foi logo uma ligação muito forte, quase inexplicável, e a minha aproximação à poesia já tinha muitas raízes, não estava portanto estabelecendo um contacto virgem com aquela forma de escrita, não. As palavras dela passaram a ser minhas, também, queria-as para mim, eu teria dito exactamente daquela maneira sem acrescentar, nem tirar, nada! Não fui capaz de ir almoçar, devorei poesia naquele princípio de tarde, troquei o corpo pela alma.
Essa ligação foi, é e será muito forte, a minha admiração pela mulher, poeta, é de veneração profunda, sem perder o sentido crítico, deixo-me sempre levar pela música e sentido das suas palavras, num gozo incrível que só a leitura poética é capaz. Obrigado Adelaide pelas viagens que nos proporcionas a tão baixo custo, eternamente agradecido.
Ansiedade pelo novo livro, "Do Tempo de Quando", que sei não pertencer à família dos seus seis ou sete irmãos, já perdi a conta, de versos, a opção pela prosa poética não é uma novidade absoluta, no meio daqueles versos todos, lá vinha uma prosa intensa, capaz de fazer despertar os sentidos para o que está além do que os nossos olhos observam. Vamos agora aguardar pelo novo corpo de poesia que a Adelaide nos vai oferecer. Dia 10 de Novembro lá estaremos para a formalidade do lançamento, com a mesma pressa, com a mesma fome, o devoraremos.

antoniomaia



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