segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Os fumadores são um grupo, têm espaços deles.

[Pablo Picasso - O Beijo]


O motivo de fumar acontece no intervalo da peça de teatro. Ela lá está com o seu cigarro entre os dedos como quem desafia, braço bem afastado do resto do corpo, suas pernas bem feitas fazem sobressair a saia justa e curta; sorriso é aberto, alegre, solto, os olhos são a continuidade do riso...
Ele finge que não a vê, finge que está concentrado no passado recente, fixa o cigarro como se este fosse a sua atenção, única atenção, finge, mas acompanha todos os gestos daquela mulher iluminada de dentro para fora, o contrário da luz que ilumina o actor, ali naquele momento havia luz própria naquela pessoa.
A peça era uma comédia russa, representada pela Cornucópia “A Floresta” de Aleksandr Ostróvski, o final deixa o espectador satisfeito de alegria, até a busca ao bengaleiro para o reaver dos confortos casacos é mais que suave e quente, cá fora está um frio húmido de Dezembro, o vapor d'água no ar é espesso e gélido, diferente do ambiente junto ao referido bengaleiro. Ele já ajudava na dança de vestir a envolvê-la com o casaco comprido que lhe dava um ar ex aristocrático importante; ela é linda, o timbre da sua voz deixa um eco, vibra um pouco mais, saem-lhe uns graves pouco femininos que lhe dão o que poderia faltar.
No gesto clássico do contacto e ficar a ver se há brilho nos olhos seduzidos, a mão dele evita dúvida, agarra-a, tinha a mão dela, na sua, agarrada com uma força que se pode soltar. O sangue dela faz sentir o coração, que o confunde ao pensar que é o dele, com a leve pressão. Não quer resistir, ergue-se nas pontas dos dedos nos finos sapatos e beija-o nos lábios com a intensidade suficiente para deixar aquele rasto sensacional de desejo.

Uma hora depois ficavam sentados frente a frente, entre uma pequena mesa redonda, os joelhos tocam-se quase permanentemente, as mãos iam ficando cada vez mais tempo nas mãos de cada um, riam, ela ria muito, a felicidade estava embutida naquele sorriso, interrompido, para mostrar se não estava a sonhar, saboreava o prazer de ter as mãos daquele belo e calmo homem, que a ouvia com uma atenção genuína. Tinham pedido duas tostas mistas e cerveja, fome da hora de ceia, eram duas da madrugada, limparam a espuma de cerveja da mesma forma, com a língua ao correr dos lábios e riram muito, seduziam-se duma forma desinibida e descontraída, os beijos nos dedos deram lugar a pequenas mordedelas desafiadoras ao tempo que não vinha. Ainda pede um café e a conta, paga, levanta-se e já ela se pendura no braço, atingido-o com beijos intensos de desejo.
Ele fuma tabaco de enrolar, tem 23 anos, estuda engenharia civil, chama-se Renato, cabelo curto bem tratado, moreno de olhos verdes, além da engenharia estuda piano no Hot Club. Militante de esquerda. Teresa, dois filhos, 35 anos bem tratados, ginásio, é tão alta quanto ele, cabelo castanho e olhos de um estranho castanho muito claro, andar seguro de quem é independente. Gestora numa entidade bancária, que pinta nos tempos de lazer, quando não está no ginásio. Fuma muito pouco, casada com um homem mais velho, que exerce funções como deputado europeu em Bruxelas.

Desejam-se na paixão da juventude de Renato mais a força da convicção de vida que tem Teresa...

... (Continua)

Abdul-Hamid

1 comentário:

Sandra Correia disse...

Texto belo, escrito com sensibilidade e muito envolvente. Deixa água na boca... Para quando a continuação prometida? Fiquei muito entusiasmada com o desenlace desta paixão entre o Renato e a Teresa! Estou em pulgas! Minha mente já voa imaginando... Em breve seremos brindados com a continuação????