terça-feira, 8 de janeiro de 2008

a morte é uma puta!

“Compreendi a frase de Hemingway, quando quiseram saber o que é que ele achava da morte e a resposta dele foi: «Outra puta.» Porque a morte é sempre uma puta e, a uma puta, não se pode dar confiança.”
entrevista de António Lobo Antunes

A morte é uma puta. Desde muito novo, desde que me lembro que convivo com ela, melhor, ainda não tinha nascido e já me confrontava com essa puta. Nasci e quinze dias antes desse momento, que deveria ser de festa, tinha morrido o meu irmão único, abraçado à puta, de uma forma trágica. Era um menino de três anos e meio.
Ainda criança revoltava-me muitas vezes com aquela morte, puta, e muitas vezes não entendia, não queria entender. Ao longo dos tempos, fui perdendo pessoas queridas, felizmente devagar, porque não sofri daquelas mortes, mais que putas, que dizimam meias famílias – lembro-me muitas vezes dos acidentes onde desaparecem algumas pessoas e ficam uma ou duas, trágico! Sobrevivendo, pensava que não aguentaria mais nenhuma e com a passagem dos tempos... foram avós, amigos e amigos importantes. Em cada morte, em cada puta, sentia que se acabava um livro, ficava num luto, nojo, dependendo da importância, imenso. Busquei as memórias todas, trabalhava todas as passagens possíveis, compilava-as como se me quisesse contar a história daquela pessoa, chorava, ria, bebia copos e mais copos... ficava em farrapos e acordava. Acordei sempre de uma forma que apelava vida, feliz, à vida passada e sobretudo à vida futura. Senti-me preenchido porque tinha dado o que foi possível à pessoa, senão dei mais foi porque não sabia que ela me iria deixar sem avisar, ou porque não tive mais tempo para dar. Estão errados os que me acusam algumas vezes de exagerado, não sou! É a intensidade que procuro dar a tudo e a todos que me relaciono, é assim que procuro defender-me da puta da morte, vivendo, vivendo sem entornar, sem deixar cair uma gota, assim como que seja um medo de deixar de fazer o que quer que seja. Depois penso logo e sempre nos que cá ficam, nesta dimensão, no nosso convívio, então faço aumentar ainda mais o meu amor pela vida, com medo outra vez que a puta apareça e não tenha feito o necessário. E nunca se faz tudo.
Se me perguntarem a data da última puta de morte importante, o dia em que o meu pai desapareceu, digo que foi numa primavera há uns três anos, não me perguntem o dia, foi num Maio qualquer. De longe a pessoa mais importante de mim. Foi o momento mais penoso e de maior aprendizagem em todo o tempo vivido, com ele, com a ausência dele, também descobri o segredo da morte, há putas sem dignidade nenhuma. Já não tenho mais medo, depois de tudo o que vivi nas eternas caminhadas à cama do hospital até ao momento final, reconhecer o corpo depois de esquartejado, tratar da cerimónia fúnebre, conviver aqueles momentos com a minha mãe e com o meu filho... foi-me dado tudo o que faltava sobre ela. A falta do medo. Não tenho mais medo nenhum dela, pode vir como vier e quando vier, não vou dar mais confiança a puta nenhuma.

antoniomaia

Sem comentários: