quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Menina Mulher

Nascimento de Vénus, de William-Adolphe Bouguereau

A poesia é carne e alma
dentro da língua dos poetas
nos desassossegos das idades
pequena e imensa de desejos
nesta recusa de falar das tristezas
assim sou sem disfarce, nesta entrega
dou o meu sangue ao que acredito
nestes delírios de sentir e amar
numa sede imensa que carrego
num perpétuo sonho com a poesia
numa revelação sem tempo

Nunca aprendi os agrados falsos
só tenho o que sou capaz de aprender
as coisas do amor são difíceis
no mar que está em mim, correntes
ondas, algas, areias, peixes, marés
mas e eu que insisto em ver
os verdes, os azuis, as ondas
os horizontes em cantos
por isso insistem em me dizer menina
Não vêem a mulher
que atrai as águas em cantos de paixão,
que desenha as secretas vozes de sal e
escava corações com imagens e palavras

Guardo um lobo nos meus sonos
não semearei desgostos maiores
nas noites de ventos
Vi sempre as estrelas
apoquentada pelos silêncios
emudeço a minha voz
logo me deleito com os sons
do marulhar ao longe
nesta cidade que me abriga, onde
caminho dentro de mim
as memórias jogam entre si
depois de nada me servirá dizer
mulher menina mulher

Constança de Almeida Lucas

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