sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Quero outra vida que desta ja estou cansada






Quero outra vida que desta já estou cansada.

Uma vida que me permita ver com olhos azuis de mar a clareza da tua aura, sem cinzento de nevoeiro que me turva esta imensidão de sentimentos complacentemente contraditórios.
Que pudesse ver a alegria de um adolescente que aguarda impaciente o dourado dos dias vindouros, convicto da boa sorte indiciada. Pouco temos a oferecer-lhe. Hipotecamos-lhe o futuro, a subsistência, a independência, a estabilidade emocional e até a dignidade! Estuda, aplica-te, trabalha, investe no futuro, se de pouco ou nada servirá. Temos para ele um emprego precário (se tivermos), poluição em abundância, governantes corruptos, uma vidinha medíocre sem tempo para sonhar, sem oportunidades ou ofertas para alimentar a alma com um bom filme, um bom livro, uma boa música, um bom espectáculo ou uma viagem, daquelas que se gravam na memória.

Que não me confrontasse com o sofrimento de uma criança, no colo desesperado da progenitora, calada cerra os dentes de dor. Aguarda a chamada do altifalante entre tantos olhares vazios de solidão, de desesperança, dor e conformismo.
-Mamã, porque não nos chama o médico, tenho frio!
-Está muita gente, meu amor, mas está quase a chegar a nossa vez!
Ouço impotente porque foi esta a vida que a sorte me rifou, a sala está a rebentar pelas costuras, temos um surto de gripe. Não, não quero esta vida.

Um homem de mãos robustas, anafado e gasto, comenta a sua não menos cansada vida… Trabalha doze horas a fio, por um soldo insuficiente para alimentar os filhos e dá graças por ter emprego. Graças por ser explorado por porcos que tudo comem, enchendo a pança à custa de muitos, como este homem de mãos robustas explorado até ao tutano! Não dou graças, decididamente, não quero esta vida.

Não lhe dou qualquer utilidade! Nada faço de enaltecedor ou nobre. Maltrato corpo e alma em exageros desmedidos. A inércia impele-me contra o sofá, sufoca-me, não me autoriza a reagir, seca-me as entranhas, embala-me numa embriaguez de desalento.

Penso em nós… No meu papel na tua vida… Não o enxergo, não o entendo, não sei se o quero. Vivo na ilusão de merecer-te, mas não. Nada tenho a presentear a não ser esta vida vazia, ressequida, irreflectida e rejeitada. Claramente não, não quero esta vida.

São cinco da tarde, nestas duas eternas horas de sala de espera, aguardo com fugaz paciência a voz emergente do além, como se da Terra Prometida se tratasse.

Nestas singulares situações, tudo fazemos para matar o tempo, ouço a cusquice da senhora de olhar triste, de roupas envelhecidas pela mágoa e mãos calejadas.
- Veja lá que a minha vizinha do quarto andar mete um marmanjo dentro de casa enquanto o marido está a trabalhar!
Quero a vida da vizinha do quarto andar. Sempre tem a coragem e lucidez para ser feliz enquanto o marido vai trabalhar! A imaginação voa, como deve ser bom ser bem-amada, tocada, beijada, desejada enquanto o marido vai trabalhar! Dispensa o marido, ó vizinha daquela senhora de olhar triste, para que o queres se não te serve? Eu na minha cusquice de pensamentos, nada devo opinar da vida da vizinha do quarto andar.

Entrei aqui de alma doente em corpo são. Interrogo-me se as minhas células terão força para lutar contra vírus e bactérias que daqui levo. Resta-me a esperança de julgá-las mais fortes que eu, não luto contra os malfeitores, exploradores que encontro pelo caminho.

Vens-me novamente à lembrança… Vejo-me reflectida no verde prado dos teus olhos… Concluo que te quero na minha vida, mas não nesta.


Vanda Romeu

1 comentário:

Pipo Andrade disse...

Adorei o texto. Copiei alguma frases *a* Vou ler o blog...